Banco Central: entenda o que é e como funciona

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Um passo para trás

 

Calma… Eu sei que você quer saber o que é o famoso Banco Central, o que ele faz, como funciona, onde vive e o que come. Mas antes de começar a explorar os mistérios por trás dessa instituição, precisamos entender alguns conceitos que irão evitar que você fique perdido no “economês”.

Aqui você vai entender alguns termos que provavelmente já ouviu falar, mas ninguém nunca chegou a te explicar. Nem mesmo o Google é capaz de salvar quando chega a enxurrada de termos técnicos que te afogam em mais dúvidas.

Um grande quebra cabeça

 

Em algum momento da sua vida você já comprou algum produto com cartão de crédito ou dinheiro físico (vulgo papel-moeda para os íntimos), fez uma transferência para pagar o churrasco do fim de semana e para os mais modernos, já utilizaram o PIX.

Você já se perguntou como essas coisas funcionam? Como através de um celular você consegue pagar outra pessoa, independente de onde ela esteja?

Tudo isso se deve ao nosso Sistema Financeiro Nacional (SFN).

O SFN é composto por um conjunto de instituições, tanto públicas como privadas, que são relacionadas entre si, garantem que ao pagar por qualquer serviço, produto, parcelas de um financiamento ou até mesmo os juros de um empréstimo, a outra parte envolvida na transação receba os recursos.

É exatamente esse ciclo que faz movimentar a nossa economia. 

Resumindo, o SFN é como se fosse uma grande teia de instituições responsáveis por controlar as transações financeiras do nosso país.

Todo poderoso CMN

 

Dentro do SFN existem subdivisões, como se fosse uma hierarquia entre as instituições. Essas subdivisões se fazem necessárias por conta da grande quantidade de organizações envolvidas. No topo dessa hierarquia existe o Conselho Monetário Nacional (CMN), conhecido pelo título de “órgão normativo máximo”.

 O CMN é uma instituição chamada de “normativa” pois trabalha com as diretrizes do funcionamento do SFN, ou seja, ela não atua na parte de execução. É o famoso “manda quem pode, obedece quem tem juizo”.

Ele é formado basicamente por 3 pessoas: o Ministro da Economia, o Presidente do Banco Central (atualmente Roberto Campos Neto) e o Secretário Especial da Fazenda.

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Em outras palavras, a função é basicamente adequar o volume dos meios de pagamento da economia (a quantidade de dinheiro existente – não apenas o papel moeda, também o dinheiro que você vê na tela do celular).

Lembra do “manda quem pode, obedece quem tem juizo”? Pois é, se o CMN é quem dita o que deve ser feito a respeito da política monetária, quem você acha que obedece?

 Se você pensou no Banco Central, acertou.

O que é o Banco Central?

O Banco Central (BC ou Bacen) é o principal órgão responsável pela execução da política monetária criada pelo Conselho Monetário Nacional. Ele é o grande CEO do nosso Sistema Financeiro Nacional.

Viu como valia a pena esperar um pouco? Aposto que agora ficou mais claro.

O BC possui várias ferramentas para conduzir a política monetária do Brasil que inclusive vamos detalhar cada uma mais a frente, mas antes, vamos garantir que todos estejam na mesma página.

O que é política monetária?

Política monetária são as diretrizes que o Banco Central deve seguir para atingir os objetivos dele, é como se fosse um manual de instruções. Existem dois tipos de políticas monetárias: a expansionista e a contracionista.

A política monetária expansionista ocorre quando o Banco Central deseja expandir a economia do país.

E como fazer isso?

Simples, colocando mais dinheiro em circulação. Quanto maior a injeção de recursos, maior a quantidade de pessoas que se sentem estimuladas a consumir cada vez mais produtos. Além das empresas lucrarem mais, cria-se a necessidade de expandir a sua produção, e consequentemente, contratar mais pessoas para dar conta da demanda.

Parece um ciclo maravilhoso: empresas contratando, desemprego diminuindo, e famílias com maior renda possibilitando maior poder de compra.

Comentário do Adm

Cenário perfeito, certo? Poderíamos viver eternamente sob uma política monetária expansionista...

Errado! Nem tudo são flores.

Pense comigo, quando as pessoas são estimuladas a gastar, isso simboliza um aumento da demanda por produtos ou serviços. Por outro lado, para dar conta da alta demanda, as empresas tomam a decisão de aumentar os preços para controlar o consumo até atingir um equilíbrio.

Aumento de demanda, preços subindo… Isso soa familiar não é mesmo? Esse movimento todo causa a famosa inflação.

Dá até um arrepio, né?

Pois é, a política expansionista é ótima, ajuda o país a crescer, diminuir o desemprego, mas ela tem um outro lado: isso tudo gera inflação, que uma hora ou outra, precisará ser controlada.

Uma reflexão: a política expansionista, que faz a economia se desenvolver, também contribui para o aumento da inflação. Apesar disso, não significa que a economia de um país crescerá apenas se tiver inflação, ou que o aumento dos preços indica um crescimento econômico.

Como funciona o Banco Central?

Bom, todo ano o Conselho Monetário Nacional(CMN) coloca uma meta de inflação para que o Banco Central cumpra.

Por exemplo, para 2021, o CMN determinou que a meta da inflação deverá ser de 3,75%, claro que o órgão máximo não vai ser ingênuo de pensar que o BC vai acertar na mosca essa meta, por isso é colocado uma “margem de segurança”, como se fossem limites superiores e inferiores de 1,5 ponto percentual.

Isso quer dizer que o Banco Central tem a meta de manter a inflação de 2021 entre 2,25% e 5,25%. Caso consiga, missão cumprida!

E é assim que o Conselho Monetário Nacional, o Bacen, os economistas, os investidores e você também poderão entender a eficiência das medidas tomadas.

Caso a inflação fique dentro dessa margem, temos um movimento de aumento de preços controlada, mas se estiver acima desta margem, ela se mostrará descontrolada dependendo do quão longe ela estiver do limite superior.

Já se a inflação ficar abaixo da meta inferior, isso mostra que existe espaço para adotar uma política expansionista porque mesmo que aumente a inflação, será um movimento mais seguro.

Quais são as ferramentas do Banco Central?

Como foi dito anteriormente, o BC não possui só uma ferramenta, mas existe uma que é bem famosa e com certeza você já deve ter ouvido falar: a taxa Selic.

A taxa Selic é a nossa taxa básica de juros, ou seja, é a referência para o cálculo de todas as outras taxas de juros do sistema financeiro, afetando desde os empréstimos e financiamentos até a rentabilidade dos investimentos. Através do Comitê de Política Monetária (Copom), a cada 45 dias, o Banco Central determina a meta da taxa Selic que deverá ser praticada no mercado.

A sua dinâmica é bem fácil de entender: ao diminuir a taxa Selic, os empréstimos e financiamentos ficam mais baratos, principalmente para as empresas, facilitando o acesso ao crédito na economia, o chamado “aumento de liquidez”.

Isso faz com que mais recursos estejam disponíveis para a população e as empresas, entrando naquele ciclo que vimos anteriormente, quanto mais dinheiro circulando, mais incentivo ao consumo, mais as pessoas gastam, empresas lucram, contratam mais pessoas e por aí vai até chegarmos novamente na inflação.

Com o aumento dos preços é necessária uma atenção maior.

Nesse momento, a inflação normalmente começa a se aproximar da meta superior colocada pelo CMN. E para evitar um descontrole, o BC começa a aumentar os juros e causar o processo inverso.

Os juros mais altos, os empréstimos e financia mentos ficam mais caros, o acesso ao crédito já não está tão fácil, as pessoas e as empresas começam a ficar cautelosas com os gastos, são desestimuladas a consumirem, diminuindo a demanda por produtos e serviços, continuando aquele ciclo que já sabemos. Até o momento que a inflação é controlada.

Resumindo, a diminuição da taxa Selic é uma ferramenta para uma política monetária expansionista, já o aumento da Selic está ligado com a política monetária contracionista.

Redesconto Bancário

O Banco Central possui o apelido de “banco dos bancos” devido ao fato de que ele costuma emprestar dinheiro às instituições financeiras. Como o Sistema Financeiro Nacional movimenta muito dinheiro, os bancos constantemente estão emprestando recursos, fornecendo crédito, recebendo saques e depósitos etc.

Anteriormente, falamos que o dinheiro que os bancos usam de caixa é o parâmetro para entender melhor o quanto poderão disponibilizar de crédito.

Outro fator importante sobre o dinheiro em caixa dos bancos é que todos precisam fechar o dia com um certo nível de caixa para manter a saúde do sistema financeiro. Quando essas instituições precisam de dinheiro para atingir esse nível, elas possuem duas alternativas: pedir empréstimo a outros bancos ou ao Banco Central.

Caso escolham a segunda alternativa, o Bacen que não é bobo nem nada, ele exige uma contraparte para ceder esse dinheiro, assim como qualquer outro empréstimo. Esses juros cobrados pelo BC são chamados de taxa de redesconto. A taxa de redesconto pode ser inferior ou superior à taxa de juros praticada no mercado.

Se a taxa cobrada pelo BC for menor do que a do mercado, o dinheiro que estava com o Banco Central começa a circular, ou seja, os bancos consequentemente ofertam mais crédito na economia.

Em um cenário em que a taxa de redesconto seja maior do que a taxa de juros do mercado ocorre o processo inverso, os bancos procuram empréstimos entre outra instituição financeira e o acesso ao crédito diminui.

Logo, em uma política expansionista a taxa de redesconto cai e durante uma política contracionista a taxa de redesconto sobe. Agora, vamos ver um instrumento bastante ágil na política monetária chamado: Operações de mercado aberto ou Open Market para quem quer sofisticar o vocabulário.

Operações de mercado aberto (Open Market)

Você já deve ter ouvido falar sobre os títulos públicos, certo?

Para quem nunca ouviu, vamos explicar brevemente: os títulos públicos são ativos de renda fixa que funcionam como um título de dívida do governo, ou seja, ao comprar um Tesouro Selic, por exemplo, você estará emprestando dinheiro para o estado em troca de juros. São considerados os investimentos mais seguros de um país.

O Open Market é bem simples de entender. Em um cenário expansionista, o desejo é aumentar a liquidez da economia – que a essa altura, para quem não entendeu ainda, consiste em colocar mais dinheiro para circular – o governo começa a comprar os títulos públicos disponíveis no mercado.

Os ativos vão para o próprio emissor que no caso é o governo e o dinheiro vai para o mercado para circular na economia.

Já em um cenário contracionista, obviamente ocorre o processo inverso: a União vai ao mercado leiloar títulos públicos para receber capital e diminuir o dinheiro em circulação. Claramente, a próxima ferramenta é a mais temida pelos investidores, a emissão de papel-moeda.

Emissão de papel-moeda

Antes de qualquer coisa, é bom frisar um detalhe importante: a emissão de papel-moeda é diferente de imprimir papel-moeda.

A Casa da Moeda é responsável pela impressão de papel-moeda, nada diferente do que você faz quando vai imprimir algo na sua impressora. Já o Banco Central é responsável pela emissão, que consiste em registrar os números daquelas cédulas impressas no sistema financeiro.

Isso quer dizer que caso você tenha uma cédula impressa pela Casa da Moeda, mas não foi emitida pelo Banco Central, (ou seja, não está registrada no Sistema Bancário) isso não passará de um papel que não tem valor algum.

Claro que esse exemplo foi meramente ilustrativo para você entender a diferença, já que toda moeda circulando na economia que foi impressa pela Casa da Moeda, foi registrada pelo Banco Central.

O ponto interessante aqui é que como a impressão ocasionará um aumento de dinheiro e nunca uma diminuição, essa é uma ferramenta exclusivamente expansionista e para alguns deve ser usada como último recurso pelos impactos inflacionários que esse artifício pode causar.

Agora, o último e não menos importante utensílio do Bacen para a execução da política monetária e controle da inflação é a chamada “Reserva Internacional”.

Reserva Internacional

Esse instrumento está ligado a outros tipos de políticas econômicas como a política fiscal e a política cambial, mas lembra que no SFN tudo está ligado? Então, esse caso não é nada diferente.

Como estamos falando de ferramentas para a gestão da política monetária, vou trazer uma visão mais “simplificada” dessa dinâmica com o intuito que seja mais ilustrativo ainda e deixar claro os impactos dessa ferramenta.

A Reserva Internacional, também chamada de Reserva Cambial, representa um conjunto de ativos que um país possui em moeda estrangeira, contemplando desde uma reserva da própria moeda como títulos públicos de outros países.

Adm

Até o Brasil diversifica seu patrimônio em outras moedas e você ainda não...

Essas reservas são administradas pelo Banco Central e feitas com o objetivo de dar uma segurança para a economia local, funciona como uma carteira de investimentos: assim como manter todos os ativos a uma moeda mais instável aumenta o risco do seu portfólio, para um país o raciocínio é similar. – É claro que os problemas e os riscos são diferentes, dadas as devidas proporções.

Agora que você entendeu o que são as reservas internacionais, vamos entender como são utilizadas.

Como as reservas internacionais são utilizadas?

Uma das principais utilidades desses ativos está no controle do câmbio. Aqui no Brasil adotamos o chamado câmbio flutuante “sujo”.

Para explicar brevemente, existem dois tipos de sistema de câmbio, o fixo e o flutuante.

No sistema de câmbio fixo, a taxa de câmbio, ou seja, o preço da moeda estrangeira, é fixada pelo governo.

Já o sistema de câmbio flutuante precifica uma moeda como o dólar, seguindo a lei da oferta e da demanda, isso quer dizer que nenhum órgão é responsável por isso, mas sim o mercado em si.

No nosso país, o sistema é chamado de câmbio flutuante sujo porque a princípio os preços das moedas estrangeiras se movimentam livremente de acordo com a oferta e demanda.

No entanto, caso ocorra algum evento que ocasione uma movimentação muito brusca das taxas de câmbio, o Banco Central interfere no sistema através de compra e venda dessas reservas internacionais.

Vamos pensar juntos: se as taxas de câmbio seguem a Lei da Oferta e da Demanda, quando existe um movimento muito grande de venda do real, o dólar acaba valorizando frente a moeda tupiniquim, o que significa que o real está se desvalorizando.

Isso quer dizer que muitos investidores estão tirando seus investimentos do Brasil ocasionando uma diminuição de dólares circulando no país.

Caso isso saia do controle e desvalorize muito em um curto espaço de tempo, o Banco Central começa a vender parte das reservas, como por exemplo a própria moeda americana para aumentar a oferta de dólares na economia brasileira e consequentemente controlando esse forte movimento das taxas de câmbio.

“Beleza, taxas de câmbio, reservas internacionais, mas o que isso tem a ver com a política monetária?”

Adm

Agora que começa a brincadeira, pega um café, uma água ou um chá e presta atenção no raciocínio.

Quando a moeda local de um país se desvaloriza, a importação de bens e serviços sofre um desestímulo, porque os preços tornam-se mais caros. Pense no real: se o dólar sobe, até viajar para fora do país acaba exigindo mais das nossas economias.

Imagine que o país importe menos, isso significa que os produtos e serviços que a população irá consumir serão locais, aumentando a demanda das empresas e indústrias que atuam no mercado brasileiro.

Junto a isso, com a moeda estrangeira mais cara, o volume de exportações aumenta, isso significa que a oferta de produtos no mercado interno diminui.

Diminuição da oferta e aumento de demanda, adivinha? 

Pois é, inflação.

Agora pense sobre o cenário inverso, uma valorização da moeda, isso iria criar um desincentivo a exportações e consequentemente um incentivo às importações. O mercado interno ficaria com uma oferta maior e uma demanda menor por produtos, o que conteria a inflação.

Resumindo, uma taxa de câmbio maior pode ajudar no crescimento da inflação em um país, já uma taxa de câmbio menor auxiliaria no controle do aumento dos preços.

Como dito anteriormente, existem muitas outras utilidades para as reservas internacionais, mas para facilitar o entendimento de como o Banco Central trabalha através desses ativos, vamos nos ater a isso agora.

E ainda não acabou!

Aqui, pudemos ver o quanto a nossa economia está toda conectada e a importância do Banco Central na execução da política monetária.

Além disso, aqui você conheceu a grande maioria das ferramentas do Bacen e como funciona a dinâmica entre elas e suas respectivas consequências para a economia brasileira.

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